O Radar Missionário, conseguiu durante o Congresso Brasileiro de Missões, uma entrevista exclusiva com o Pastor Marcos Agripino Castro de Mesquita que é pastor da IPB e missionário da APMT – Agência Presbiteriana de Missões Transculturais. Ele é o atual Executivo da APMT, desde janeiro de 2001, sendo responsável por todos os projetos missionários transculturais da IPB em mais de 30 países, com um staff atual de aproximadamente 140 missionários. Os projetos que supervisiona e coordena abrangem ação social, capelania hospitalar, desenvolvimento de liderança autóctone, aconselhamento familiar, discipulado, evangelismo, plantação de igrejas, ensino teológico, educação formal, tradução da Bíblia, entre outros, e os grupos étnico-religiosos alcançados são: animistas, árabes, budistas, ciganos, hindus, indígenas, beduínos, ateus, muçulmanos e curdos. Foi Missionário de Asas de Socorro (MAF – Mission Aviation Fellowship) por 9 anos (1992 a 2000). Foi também presidente da AMTB – Associação de Missões Transculturais Brasileiras por dois mandatos, diretor regional do COMIBAM Brasil e membro da Junta Diretiva Internacional do COMIBAM (Cooperação Missionário Ibero-americana). Atualmente é membro do Conselho Diretor de Asas de Socorro e Pastor Auxiliar da Capela Presbiteriana de Anápolis. É casado com Mônica e pai de Jessica e Isabela.

Durante a entrevista o pastor falou sobre os novos rumos da missão, após a pesquisa apresentada pela AMTB, a relevância do evento para missões, missionários do campo de risco e muito mais.

 

Radar Missionário: Qual a importância da realização do Congresso Brasileiro de Missões para o futuro de missões?

Pastor Agripino:  Eu acredito que esse congresso representa um marco no cenário missionário brasileiro, porque ele proporciona um ajuntamento das agências missionárias e trabalho do contexto de missões no Brasil e fora dele. Assim nós temos a possibilidade de refletir as ações missiológicas, e fazer uma reflexão de estratégias, metodologias e das tendências do cenário missiológico mundial, sendo possível perceber em um só lugar o movimento de várias agências atuando em suas ações missionárias, e nessa combinação da troca de experiência, vivência e de informação para que a gente comece a juntar as informações e fazer com que haja uma cumplicidade entre as organizações missionária. Dessa forma a obra transcultural como também fora da realidade brasileira, possa ter um alcance mais estendido e também mais eficaz. Contudo, não é interessante apenas para as agências, mas também para os irmãos que desejam ser missionários, para professores, pessoas que são formadores de opinião, fomentadores da teologia e da missiologia, onde através dessa construção teológica e missiológica, possam passar as experiências nas instituições de ensino. Então aqui nós temos a possibilidade de enriquecer por meio de vários seguimentos e de pessoas de algumas áreas que estão fazendo com que a Missão seja comprida.

Radar Missionário: Como analisou a pesquisa feita e apresentada pela diretoria da AMTB?

Pastor Agripino: Nós temos que observar e voltar um pouquinho na história, para entender o que está acontecendo nesse momento e representado na pesquisa. Olhando o cenário missionário a partir do Brasil, nós temos momentos pontuais. No I Congresso Missionário Ibero-americano COMIBAM, realizado em 1987 em São Paulo, cerca de quatro mil missionários de várias partes do Brasil e do mundo se reuniram. Nesse evento teve um boom do movimento missionário brasileiro. Muitas agências missionárias atendendo o cenário, começaram suas atividades. Então a gente pode olhar na história, que o movimento missionário cresceu na Europa e depois se espalhou para várias partes do mundo, aí vai para a América do Norte, respingando para a América Latina, em especial o Brasil. E hoje o mundo olha para o Brasil com uma grande força missionária, agora sendo a vez da América Latina. E o Brasil é o grande líder desse movimento missionário, que teve o primeiro passo em 1987. Então a pesquisa começa a ser levantada a partir desse período, de 1987, pois antes não temos registro do crescimento do movimento missionário. Se me questionasse sobre o Brasil estar vivendo atualmente uma força missionária, eu diria que ainda não. Mas, estamos sendo a região que mais cresce no mundo para envio de novos missionários e precisamos por meio dessa pesquisa fazer uma reavaliação. Porque não é somente enviar os irmãos e ficarmos alegres pelo crescimento. Eu acho que a formatação apresentada deve nos levar para uma avaliação crítica, onde está indo à tendência do movimento missionário brasileiro. Então segundo os dados até agora apresentados, por exemplo no meu caso com o líder de movimentação missionária, me leva a pensar que para o próximo momento eu tenho que fazer uma reengenharia do movimento missionário. Porque a concentração da união dos esforços, segundo os dados estatísticos, está focada para o campo, indo em volume maior em grupos, que em algum momento na história foi alcançado. E os povos que são considerados não alcançados, nós estamos enviando poucos missionários. Então esses dados nos alegram pelo crescimento missionário, mas nos deve levar uma reflexão crítica de onde está a concentração maior de recursos humanos, financeiros e onde nós estamos concentrando a dedicação, se é em direção a aqueles que nunca ouviram falar do evangelho.
 

Radar Missionário: Essa pesquisa pode mostrar um novo direcionamento do caminho de missões? Ou é só readequar as estratégias?

Pastor Agripino: Eu creio que pode haver um redirecionamento, pode se estabelecer a partir dessa pesquisa, dos dados estatísticos, um novo paradigma. Quer dizer um estabelecimento de padrões e conceitos. Porque quando passamos por um processo de estabelecimento de novos padrões e conceitos do movimento missionário e quando criamos esses novos valores e padrões, somos impulsionados a novas ações. Então isso deve gerar em todo o movimento missionário uma nova visão. A partir daí deve-se sistematizar essa visão e criar metodologias e estratégias para concentrar o esforço maior para quem nunca ouviu o evangelho. Então somente o dado de números de crescentes, ele é importante, mas não podemos fixar nesse ponto, devemos nos preparar para desenvolver uma ação melhor.

Radar Missionário: O congresso teve um dos maiores públicos das edições. Como você analisa esse crescimento?

Pastor Agripino: Isso é algo interessante a ser analisar. Segundo a minha perspectiva o que está acontecendo, é o mesmo que que citei antes sobre o boom missionário no Brasil em 1987, quando aconteceu o crescimento de agências interdenominacionais. Hoje nós estamos vivendo um momento de agências denominacionais, essas estão começando a se despertar para a obra missionária. Eu estive participando como preletor de um evento em Portugal   chamado “A diáspora brasileira”, e o tema foi em cima de dados sobre os mitos da diáspora brasileira. A conclusão que eu tenho chegado é que algumas agências precisam voltar para casa, voltar para a igreja local e juntar esforços em prol de uma causa. No congresso CBM podemos ver várias agências missionárias internacionais, que estão começando a abrir seus olhos para o investimento missionário e com isso vai agregando mais pessoas. Um ponto interessante a dizer é, eu não me preocupo muito com um volume de pessoas, pode se ter muitas pessoas, mas elas não serem fomentadoras do assunto ou formadoras de opinião. Então tem hora que a gente precisa de mais pessoas influenciadoras, do que grande multidão. Quando a gente olha as agências denominacionais, elas têm os seus alvos, políticas e filosofias com focos estruturais na estruturação, mas independente disso, nós temos que definir uma ação. Por exemplo: Focar em um grupo e levantar a questão, esse é um grupo não alcançado? Então o que eu posso usar da minha estrutura a favor daquele povo não alcançado, que não venha ferir a filosofia de missão da minha denominação ou da minha igreja? E um grupo também decide focar ali, então quando você vê, por exemplo – na data de hoje da realização dessa entrevista porque o movimento é constante ele muda o tempo todo -, eu analiso que quando a gente compara o movimento europeu e o contexto africano a conclusão que eu devo chegar é que o continente europeu é mais carente de evangelismo do que o africano. A questão do continente africano é que tem a junção do social, da carência, da necessidade. Contudo, quando olhamos pelo prisma somente do evangelho, disparadamente o continente europeu é mais carente, porque ele morreu. Penso eu, que daqui a 20, 30 anos, o movimento missionário mundial, ele vai começar a partir do movimento africano, na sua composição de 55 países. Mesmo diante das suas características e necessidades, há uma tendência muito forte de Deus começar a usar o continente africano com seus países para o avanço da obra missionária. Porém, hoje a bola da vez está na América Latina. Então nós não podemos perder esse momento que Deus está dando para nossa igreja. Enquanto estamos nesse crescente movimento missionário, precisamos começar a olhar quais as regiões do Brasil e do mundo, que nós devemos usar toda a nossa força missionária para alcançar aquele grupo mais carente, por exemplo a Europa, a Ásia, Oriente Médio, outros lugares.

Eu defendo uma tese que nós devemos tratar missão não como um programa, não como mais um evento de nossa vida enquanto igreja. Não podemos esquecer de olhar a história. Como nós surgimos. Um dia Deus colocou no coração de alguém, em alguma parte do mundo, para vir ao Brasil e pregar o evangelho e assim nasceu a Assembleia de Deus e as outras denominações, quando o Brasil ainda era os confins da Terra. Então é a hora que a gente tem para pensar que biblicamente, o tempo de Deus para nossa igreja brasileira é agora e definirmos qual é a nossa melhor estratégia, como devemos despertar vocacionados com qualidade. Não devemos mandar profissionais em missões para o mundo, nós precisamos mandar missionários que vão anunciar a glória de Deus e isso é completamente diferente. Porque qualquer cristão que queira evangelizar, não precisa de uma agência missionária, ele pode comprar uma passagem aérea e ir anunciar o evangelho. Mas, se vai trabalhar com os pressupostos filosóficos, teológicos e missiológicos, ele tem que ter fundamento e convicções bíblicas, para que ao estar no campo possa contar com qual seja a ferramenta. Se for em lugares religiosamente fechados, a melhor forma desse missionário for trabalhar como professor de inglês, ele deve ser colocado como professor de inglês. Se a melhor ferramenta for colocá-lo como engenheiro, assim deve ser colocado. Entretanto a estratégia deve estar em segundo plano, é valido lembrar que é uma ferramenta, a missão não é o exercício da profissão, a missão é o anúncio da Glória de Deus. A igreja não pode perder isso, nós temos uma missão nesse mundo, não estamos aqui fazendo relações públicas, nós estamos nesse mundo para dar um ultimato e não podemos perder essa perspectiva nunca. Deus nos amou, pagou um preço alto, morreu e viveu para que fossemos alcançados por sua graça. Agora nós temos o compromisso de anunciar a graça de Deus em todos os lugares, em todos os confins da terra. A igreja não pode ter a ideia que está ajudando a obra missionária, quando a igreja manda um missionário para os confins da terra, a igreja está lá. Se a igreja manda alguém para a Coreia do Norte, para o Japão, seja qual for o país do mundo, ela não está mandando um missionário, ela está indo através do missionário, então a igreja está lá, é o reino de Deus presente, e essa é uma oportunidade de Deus para a nossa geração.

Radar Missionário: Como o senhor tem visto esses missionários em crise no campo de risco? E a posição das igrejas enviadoras em relação a essa realidade de campo?

Pastor Agripino: Eu entendo que nesse momento nós estamos passando pela fase de pensar de como a igreja local pode amadurecer no envio do missionário para o campo. Olhando para um pool de organizações e de igrejas locais, ainda existe a visão romântica do campo missionário. Existe ainda um irmão que recebeu um chamado que está querendo servir a Deus, então o pastor empoe a mão, faz uma oração e diz ‘Deus te abençoe’ e quando você voltar aqui, preste um relatório sobre sua viagem missionária. Isso é uma responsabilidade da igreja local, a gente precisa dimensionar o que envolve um corpo missionário, hoje no Brasil ou fora dele. O missionário que sai, que ele naturalmente se dispõe a servir a Deus, é uma coisa maravilhosa, porque assim podemos ver que Deus ainda continua despertando pessoas para serem servos onde Deus o mandar, mas somente isso não basta. É necessária uma etapa do mover de Deus no coração para servir, porém o fato de ter o espírito de serviço, não cumpre a missão de servir com eficácia a ação no campo missionário. Então a igreja precisa amadurecer em várias etapas do processo de envio, e dentre elas estar em capacitar aquele que está sendo enviado. Quem está enviando precisa entender que o enviado não é só simplesmente colocá-lo na frente da igreja impor as mãos, orar e dizer vai que Deus te abençoe. Isso é muito pouco, isso é muito raso, nós precisamos ter uma cumplicidade no envio, aqueles que estão enviando não é o pastor da igreja local, não é a igreja do bairro, quem está enviando é Deus. Deus está colocando pessoas ao redor daquele que está sendo enviado, para que eles tenham uma cumplicidade no envio e uma responsabilidade, a gente não pode tratar a obra missionária de forma simplória, precisamos entender que ao enviar, aquele missionário tem que estar capacitado em missões e de estar lá. E eu que estou impondo a mão e pedindo a benção de Deus, o meu compromisso não se encerra colocando o missionário dentro de um ônibus ou avião, enquanto Jesus não voltar, eu tenho uma responsabilidade com aquele que eu impus a mão e orei. Porque quando fazemos isso não apenas temos o compromisso com o enviado, mas com o Todo Poderoso, com aquele que reina, aquele que está enviando alguém a compartilhar sem medida no campo que Deus o colocar.

Entrevista realizada no congresso CBM 2017, pela jornalista Diane Duque

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