Quem nunca foi parado na rua por uma mulher vestida de cigana pedindo para ler o futuro desenhado nas linhas de suas mãos? E é claro que a primeira coisa que associamos a essa figura é o misticismos, espiritismo e desejamos elas bem distante de nossas vidas. Tem também o mito que os ciganos chegam nas cidades para roubar crianças e cachorros para rituais macabros. São muitos os preconceitos, histórias e mitos que envolvem os ciganos. Mas, a Missão Amigos dos Ciganos (MACI), um grupo formado por ciganos e não ciganos que desde 2002, desenvolve diversos projetos em prol do bem estar integral das comunidades ciganas no Brasil e no Exterior mostra que as coisas são bem diferente do que a maioria da sociedade pensa a respeito desse povo.

A MACI foi fundada em Curitiba (PR) com o objetivo de comunicar a mensagem do Evangelho de forma prática, incluindo excluídos, amando odiados e acolhendo discriminados. E ao longo de mais de uma década faz um relevante trabalho. Hoje o ministério conta com mais de 30 missionários vinculados, presentes em oito estados brasileiros e desenvolve diversos projetos.

Marcos Gomes , da equipe da Maci explica que em relação ao aspecto religioso não há uma identidade única entre os ciganos. “Não existe uma religião oficial, cada grupo ou indivíduo segue a religião de acordo com sua preferência. No Brasil, a maior parte dos ciganos se denominam católicos devido a forte tradição religiosa local, mas são sincréticos, convivem e se relacionam com todas as religiões numa mistura onde superstições, santos, deuses, entidades, espíritos, quadros, estátuas, enfeites, rezas e líderes religiosos são incluídos no sistema de crenças”.

Em entrevista exclusiva ao Radar Missionário, Valdir Apolinário, presidente da Aliança Nacional de Apoio aos Ciganos – ANACI e presidente da Missão Amigos dos Ciganos – MACI, que é Cigano da etnia Calon, falou sobre pontos curiosos sobre os ciganos convertidos, o trabalho e os desafios da Missão.

Radar  – Quando um cigano se converte a Jesus, deixa de ser cigano?

Valdir –  Não, de modo algum. Os ciganos representam uma nação, um povo, uma etnia, não é um estilo de vida, é descendência, eles são um povo, que possui uma identidade étnica com língua própria, cultura e tradições. Ele passa a ser um cigano(a) convertido a Jesus que aprenderá a viver uma nova vida como todos nós, isto inclui deixar algumas práticas e costumes mas nunca seu povo. Como diz em Apocalipse 7.9 virão de todas as nações, tribos, povos e línguas, muitos virão Te louvar!

Radar – Como a Igreja deve fazer se um cigano passar a frequentar seus cultos?

Valdir – Tratá-los bem, acolher, incluir e amar os ciganos. A Igreja do Senhor não deve deixar ninguém de fora, mas infelizmente dentro da igreja evangélica existe muito preconceito contra ciganos, por conta da desinformação por parte dos pastores, líderes e missionários sobre o povo e sua cultura. A Igreja precisa olhar para o cigano como uma pessoa igualmente amada por Deus e alvo da nossa evangelização, mas reconhecer que existe a necessidade da contextualização, de conhecer e entender o povo para melhor pregar o evangelho. Nossa Missão está aberta a dar treinamento a igrejas e grupos que se interessam ou estão sendo abordados por ciganos e ajudar a preparar uma melhor abordagem e evitar erros na comunicação do evangelho, contribuindo para o surgimento de bons ministérios, para uma evangelização eficiente e relevante para esse povo amado por Deus.

No entanto é importante dizer que são raros os casos de ciganos frequentando igrejas comuns, e isso porque as igrejas brasileiras são feitas para brasileiros, com linguagem, liturgia, modelos e códigos que são muito estranhos para outros grupos. O lema do CONPLEI é muito adequado também para nós: “Em cada povo uma igreja genuinamente indígena”. Dessa forma acreditamos que os ciganos serão melhor edificados se a Igreja nasce em seu seio, dentro de sua cultura e organização social. Certamente serão assimilados e destituídos de ciganidade caso venham a frequentar igrejas culturalmente diferentes de seu povo. Essa visão é uma visão missiológica muito mais assertiva do ponto de vista da missão transcultural. Nosso paradigma não é “traga para nosso ambiente de culto”, mas “leve Cristo e implante a igreja no seu ambiente cultural”.

Radar – Depois de muitos anos quais são as maiores dificuldade que ainda a MACI enfrenta?

Valdir – Nossa maior dificuldade é lidar com o preconceito e a discriminação por conta da desinformação da Igreja evangélica. A Igreja Evangélica Brasileira é formada por pessoas da sociedade que mesmo convertidos ao evangelho ainda trazem na sua formação uma visão distorcida e estereótipos que classificam negativamente os ciganos, tudo isso pela falta de conhecimento da cultura e da história do povo cigano.

Falamos de um povo numeroso, estima-se mais de 1 milhão no Brasil, ainda não alcançado e espalhado em todo o país, que conta com pouquíssimos missionários, nossa missão tem 8 missionários em tempo integral (juntando todos grupos e denominações evangélicas somam-se 24 missionários em tempo integral) e somente 7 denominações evangélicas realizando algum tipo de trabalho missionário permanente entre esse povo no Brasil.

Outro desafio tem a ver com o povo, que é a barreira linguística, o missionário precisa entender que se trata de um povo que tem uma língua e se tem uma língua tem segredos culturais, que é um obstáculo a se transpor com o tempo, mesmo com a limitação de ser uma língua protegida, que não devemos ter acesso, suas expressões falam muito sobre eles e a cultura.

A barreira social é outra dificuldade à inclusão dos ciganos na sociedade – o Reino de Deus em si já os inclui! O missionário precisa vencer a barreira social, entendendo que eles se fecham para se proteger por questão de segurança e também pela preservação de suas raízes culturais. O missionário tem de mostrar que ele é do bem e não uma ameaça. A nossa missão é anunciar o evangelho que é supracultural, que respeita toda a diversidade de cultura que Deus mesmo criou, corrigindo apenas aquilo que separa as pessoas da presença de Deus tal como o sincretismo religioso e outras objeções a Sua vontade. Dificilmente se encontra um cigano que não seja receptivo a uma oração e normalmente os missionários são bem recebidos, entretanto eles estão sendo visitados por diversos grupos religiosos.

Radar – Quais são as expectativas para o futuro?

O futuro a Deus pertence, mas nosso alvo é tirar os ciganos da lista de PNAs (Povos Não Alcançados) no Brasil. Acreditamos que os ciganos devem ter seus próprios missionários e atuarem dentre eles mesmos, fazendo suas adaptações e reelaborações internas à luz do Evangelho. Também acreditamos que ciganos devem vivenciar o Evangelho integralmente, atuando nas esferas sociais e promovendo a inclusão na sociedade. Nossa expectativa é que nosso trabalho seja uma semeadura que dará frutos para o próprio povo ao longo do tempo. Frutos de transformação social, inclusão e implantação do Reino dos Céus e seus valores de justiça e paz nos corações.

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