Entrevista com o pastor André Sanches, missionário da Junta de Missões Nacionais da Convenção Batista Brasileira.

 Como aconteceu a sua conversão?

Fui alcançado pelo Evangelho no final dos meus 16 anos, quando fui evangelizado na escola por um colega de classe recém convertido. Ele frequentava uma igreja em Curitiba e começou a compartilhar a mensagem de salvação aos colegas de sala de aula. Ao mesmo tempo em que fui evangelizado na escola, minha mãe começou a frequentar outra igreja e também orava por minha vida e me evangelizava.

Conte em um breve histórico da comunidade de ciganos em que o irmão trabalha com a evangelização.

A Missão Amigos dos Ciganos atua em diversas comunidades ciganas, tanto os nômades quanto os seminômades e sedentários. É um trabalho com foco nacional e se expande sempre que uma igreja se interessa em evangelizar os ciganos em seu Estado, cidade ou bairro. Os ciganos chegaram ao Brasil em 1574, quando o primeiro cigano, chamado João Torres, foi degredado de Portugal em decisão da Corte que atendia a Igreja-Estado. A história mostra que a deportação de ciganos portugueses continuou pelo menos até o final do século XVIII. Se estabeleceram no país sofrendo as mesmas perseguições que enfrentavam na Europa, porém a unidade enquanto povo foi um elemento fundamental para sua preservação cultural. Os ciganos não possuem uma “religião oficial”, mas se contextualizaram aos credos mais comuns no Brasil e por isso apresentam uma característica sincretista, misturando catolicismo e animismo. Mesmo assim no Brasil há igrejas evangélicas ciganas, ciganos muçulmanos, espíritas, etc. Há dois principais grupos ciganos no Brasil: Calom e Rom. Os calons são de origem ibérica, oriundos de Portugal e Espanha. Os Rom ou romanis vieram do Leste Europeu. Esses grupos são bilíngues, sempre falando o idioma local (aqui no caso português) e a língua cigana, sendo que cada grupo tem dialetos diferentes. Não há dados numéricos sobre a população cigana no Brasil, mas alguns arriscam afirmar estimativas em torno de um milhão de ciganos, sendo que pelo menos metade sejam nômades. Acredita-se que 95% dos ciganos são analfabetos e sofrem diversas restrições de acesso aos equipamentos sociais e sistemas de educação e saúde. No Brasil são encontrados ciganos estrangeiros e nacionais.

 Como surgiu a ideia do ministério com os ciganos?

Na Bíblia! Simplesmente decidimos obedecer à ordem do Senhor Jesus: “Ide por todo o mundo e pregai a toda criatura” (Marcos 16.15). Quando Cristo diz “toda criatura” está se referindo a todas as pessoas, indiferente de cor, etnia, nacionalidade, cultura, religião, status social etc. Os ciganos estão incluídos nos alvos missionários de Jesus Cristo. Infelizmente os conhecidos seguidores de Jesus não incluíram os ciganos nos alvos e esforços da missão da igreja. Diante dessa situação, evangelizar ciganos tem sido coerente com o desafio missionário de Cristo de forma prática ao mesmo tempo que é incoerente com a prática atual da igreja evangélica brasileira: que tem sido eletiva e exclusivista, fazendo acepção de pessoas e não sabendo lidar com os diferentes. Temos esperança de que isso pode mudar. Amém!

Quais as estratégias que o irmão usa para evangelizar a comunidade cigana?

Não existe uma “estratégia padrão” para a evangelização de ciganos. Primeiro porque ciganos não são padronizados. Apesar das muitas semelhanças, cada grupo cigano é diferente do outro: cada um tem uma subcultura, um dialeto da sua língua, um costume local, um estilo de vestimenta, etc. Segundo: cada grupo tem um histórico e um nível de contato com o evangelho. Alguns grupos são altamente místicos e se identificam com “igrejas evangélicas mágicas” (que são aquelas onde a ênfase não é na mensagem de salvação e sim nas “manifestações sobrenaturais”), outros são bastante animistas, acreditando em espíritos, outros são extremamente sincretistas, misturando as mais variadas crenças, etc. Terceiro: alguns ciganos sabem ler, outros não. O fator educação é determinante para a construção de uma estratégia para um grupo específico. Valorizamos a oralidade dos ciganos e contamos histórias bíblicas que eles mesmos contam para outros membros da comunidade, para seus filhos e netos. Isso faz com que memorizem textos bíblicos parafraseados e histórias bíblicas. Outro fator é o conceito de “evangelização” que temos colocado em prática. Evangelizar não envolve somente a comunicação verbal da mensagem das boas novas, mas também a comunicação não-verbal, ou seja, o testemunho (evidência) de um Cristo que está intercedendo em todas as dimensões da vida dos ciganos. O Evangelho abençoa a vida do cigano como um todo! Não é só a salvação da “alma”, mas dá comida para matar a fome, água para saciar a sede, documento que traz cidadania, alfabetização que integra à sociedade e permite ler a Bíblia, valorização cultural que os identifica como ciganos valorizados por Deus. o evangelho todo (não pela metade), para o homem todo (não só para a alma) para todos os homens (inclusive para os ciganos) e em todos os lugares (acampamentos ciganos também!). Somos um ministério que olha para o cigano como um ser biopsicossocial-espiritual e para o Evangelho como o único recurso de Deus para resgatar todo esse ser humano cigano.

O irmão usa algum material especial como ferramenta?

Materiais na língua cigana: Filme Jesus, evangelhos e folhetos. Materiais em português: Filme Socorro (AMME Evangelizar), “Desafiando Gigantes”, “A Virada”, bíblias NTLH etc.

Seria fácil para alguém de fora da cultura cigana conseguir fazer um trabalho de evangelização entre os ciganos?

Os ciganos são bastante receptivos. Falta à igreja mais interesse e preparo para ir até os ciganos. Muitos crentes até visitam acampamentos, mas o fazem com receio e medo de maneira que pregam mensagens bem agressivas: “deixem a leitura de mão ou vocês irão para o inferno”. O resultado desse tipo de abordagem é que os ciganos se sentem mal e olham para os crentes como pessoas insensíveis. Outros cristãos falam um vocabulário estranho aos ciganos, usando termos do “evangeliqueis”, tais como: “um vaso falou comigo nesta manhã”, “a morte vicária do Cordeiro de Deus” ou “a expiação no Gólgota ressoou em todo o cosmos”. São termos que impedem a comunicação clara da mensagem do evangelho aos ciganos; o ideal é falar de forma popular. Além disso a abordagem eficiente e eficaz nas comunidades ciganas deve ser feita a partir da cosmovisão dos ciganos, ou seja, deve-se considerar suas culturas, vestimentas, crenças, vocabulário, costumes etc. Por esses e tantos outros motivos o preparo é fundamental!

Quais são as dificuldades que precisam ser trabalhadas entre os grupos que já possuem trabalho evangélico?

Sincretismo religioso – mistura de crenças. Uma das piores experiências que um missionário pode ter quando comunica sua fé é ouvir do evangelizado: “Jesus é bom e é mais um ‘deus’ na minha lista de deuses e santos. Obrigado por me falar dele, assim como rezo para os santos também vou orar a Ele!”. No sincretismo Jesus não é “O caminho, A verdade e A vida” (João 14.6), mas uma mera opção religiosa… apenas “mais um componente do panteão religioso” do indivíduo. Esse tipo de afirmação desvaloriza e reduz o sacrifício de Cristo a um mero e insignificante ato histórico impotente para salvar com a exclusividade que o Cristo representa: Ele é o único caminho a Deus (ler 1 Timóteo 2.5), não existem outros mediadores… contrário ao que as tradições e fábulas humanas afirmam.

 Discriminação evangélica. Certa vez vi uma cena infeliz: ao ser abordada por uma cigana que pedia para “ler a sorte” numas das ruas em Curitiba, uma mulher com cabelo e saia comprida, com uma bíblia debaixo do braço disse à cigana: “para trás de mim Satanás!” Essa é uma cena comum nas principais cidades do país. Muitos crentes, desprovidos de informações, olham para os ciganos como inimigos e não como vidas amadas pelo Criador de todas as pessoas. A desinformação, o medo, a falta de preparo e muitas vezes o puro racismo geram consequências desastrosas (até mesmo eternas) para a vida de milhares de ciganos. Se deixarmos de lado as barreiras e preconceitos e amarmos os ciganos o trabalho dos missionários será mais fácil!

 Há algum curso preparatório para evangelistas de comunidades ciganas? Qual ou Quais?

Nós ministramos cursos de capacitação missionária para pequenas equipes (mínimo cinco pessoas) em diversas igrejas do país. Fazemos isso quando somos convidados para ministrar tal curso, que é gratuito. Temos orado a Deus para igrejas evangélicas bíblicas, sérias em seguir a Palavra de Deus sejam despertadas pelo Espírito Santo para evangelizar os ciganos. Nossa agenda para este tipo de treinamento é definida pela Junta de Missões Nacionais e é direcionada a todo o povo de Deus.

Existe costumes ciganos que dificultam a aceitação do evangelho? Quais?

Em geral os ciganos são bastante “religiosos”, acreditam em Deus e em mediadores. Quando se fala de Deus para os ciganos, eles gostam bastante e “entregam a vida para Jesus”. Muitos evangélicos tem a ilusão de que eles se tornarão evangélicos ao levantar a mão em resposta a um apelo. Há necessidade de um trabalho longo e bem estruturado. Na língua cigana não há uma palavra que identifique o Filho de Deus, por isso muitos ciganos não compreendem a Trindade e ainda a mesclam com todos os santos que eles conhecem. Nossas observações e pesquisas mostram que em muitos grupos a teologia cigana configura um “deus multifacetado”, ou seja, um deus que se apresenta de várias formas, mas é um só. Ora ele é representado por um santo católico, ora ele é representado por um espírito, ora por Jesus! Isso lembra muito o Hinduísmo que tem a mesma dinâmica, apresentando o “deus Brahma” em diversos formatos (cerca de 330 milhões de “formas”) de “pequenos deuses e semi-deuses”. Muitos ciganos clamam à um santo como se estivessem clamando a Deus, como que se Ele tivesse aquela faceta naquela momento e mais tarde tivesse outra representação, na “casca” de outro santo, espírito, etc. Para que a comunicação do evangelho seja eficiente e eficaz é fundamental um processo de pesquisa, oração, elaboração de estratégias, teologia de abordagem e contextualização. Mas é importante frisar que a evangelização não deve ser sinônimo de “etnocídio”, ou seja, a destruição cultural dos ciganos. O evangelho nunca teve a proposta de destruir culturas, mas de salvar o ser humano dos pecados. E para salvar os seres humanos dos pecados não é necessário que culturas humanas sejam “ocidentalizadas”, “americanizadas” ou “europizadas”. Lesar uma cultura com um evangelho na roupagem europeia ou americana por exemplo, seria o mesmo que difundir um tipo de imperialismo missionário, que não desassocia mensagem do evangelho da cultura do comunicador. O melhor exemplo de alguém que ensinou que Cristo é único e exclusivo caminho para a salvação sem modificar a cultura do público alvo é do apóstolo Paulo, em sua carta aos Coríntios (1 Co 9.22b): “Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns”.

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