Crescer em meio a constantes mudanças de país e, portanto, cultura pode ser enriquecedor. A experiência, contudo, também apresenta desafios para crianças e jovens que acompanham seus pais ao redor do mundo. Um deles é a formação da identidade, explica a especialista americana Ruth E. Van Reken, coautora do livro Third Culture Kids: The Experience of Growing Up Among Worlds (crianças de uma terceira cultura: a experiência de crescer entre mundos), juntamente com David E. Pollock. “Como naquela história do patinho feio – que na verdade era um lindo cisne, mas não sabia disso até estar entre cisnes -, as TCKs podem ter dificuldades em identificar qual cultura, entre as tantas que conhecem, define melhor sua identidade”, diz a pesquisadora. Confira a seguir os principais trechos da entrevista que ela concedeu a VEJA.com.

Quais as vantagens e os desafios para uma “third culture kid”, ou seja, uma criança que cresce viajando de um país a outro?

As TCKs conhecem muito do mundo, conquistam amigos de diferentes partes e aprendem como outras pessoas vivem, pensam e fazem as coisas. Muitos, porém, sentem dificuldades em retornar ao país de origem, onde podem ser vistos como “imigrantes enrustidos”, porque cresceram em outra cultura como um verdadeiro imigrante, mas falam como seus compatriotas e se parecem fisicamente com eles. Outro desafio são os ciclos de separação e perda inerentes ao estilo de vida de uma TCK. Os relacionamentos dessas crianças são rompidos e, assim, elas perdem seu lugar na comunidade e na cultura que aprenderam a amar.

Tantas mudanças interferem na formação da identidade?

Todas as crianças conhecem uma cultura a partir do mundo ao seu redor. Na medida em que interagem com esse ambiente, desenvolvem uma identidade pessoal e de grupo. A diferença para as TCKs é que o mundo ao redor delas e suas relações mudam com bastante frequência. Como naquela história do patinho feio – que na verdade era um lindo cisne, mas não sabia disso até estar entre cisnes -, as TCKs podem ter dificuldades em identificar qual cultura, entre as tantas que conhecem, define melhor sua identidade. Muitos acabam encontrando uma maneira criativa de usar um pouco de todas as experiências que vivenciaram. Mas esse pode ser um processo demorado.

O que difere as TCKs de outros imigrantes?

As TCKs são pessoas que passam parte significativa de seu desenvolvimento fora da cultura de seus pais. No entanto, isso não significa que sejam pessoas que apenas acumulam experiências ecléticas individuais. São pessoas que compartem com outras semelhantes a elas um estilo de vida de mobilidade global e esperam pela volta ao país de origem. Essa espera faz com que os pais as coloquem em escolas internacionais, por exemplo, e não em escolas locais, para que elas não percam o vínculo com a cultura de origem – mesmo que nunca mais voltem para lá. Isso torna as TCKs diferentes de outros imigrantes, que geralmente se mudam para outra nação de maneira definitiva.

Para as TCKs, quais as consequências dessa experiência na vida adulta?

Em um mundo globalizado, a habilidade para negociar em diferentes ambientes culturais é uma aptidão que muitas empresas e organizações buscam em seus empregados. Saber diversas línguas também pode ser uma vantagem pessoal e profissional. Além disso, ser adaptável, flexível e capaz de pensar fora dos padrões usuais são características que as TCKs carregam para a vida adulta. A maior dificuldade, no entanto, pode ser criar vínculos afetivos a largo prazo devido ao histórico de rompimentos e perdas.

 

 

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