Por Ronaldo Lidório

“E foram vistas por eles línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles. E todos foram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem” At 2.3,4.

O Pentecoste, em Atos 2, foi possivelmente a experiência mais fascinante e transformadora da Igreja após a ressurreição de Cristo. O Espírito Santo é a pessoa central neste capítulo e Lucas é justamente o autor que mais o menciona nos Evangelhos. Naquele momento o Espírito Santo, prometido e proclamado diversas vezes por Jesus, veio sobre a Igreja e esta se viu inundada por línguas como de fogo, som de vento fortíssimo, irmãos e irmãs falando em outras línguas. Havia uma impressionante e inenarrável presença de Deus e o fato histórico é que esta Igreja jamais foi a mesma. Tornou-se audaciosa, comprometida e fiel a Jesus. Produziu discípulos dispostos a viver e a morrer por Cristo.

Pela tradição cristã, Tiago, irmão de João, pregou a muitos gentios a partir de Jerusalém. Tomé evangelizou os pártios, medos e persas, além dos carmânios, hircânios, báctrios e mágios, vindo a morrer em Calamina na Índia. Até nossos dias, há no sul da Índia a Igreja de São Tomas, com referência a Tomé. Simão, irmão de Judas e Tiago, evangelizou os egípcios no tempo do Imperador Trajano. Simão, o apóstolo, pregou a Cristo na Mauritânia e norte da África. Marcos evangelizou o Egito, onde foi martirizado em Bucolus. Bartolomeu também chegou até a Índia e traduziu para uma de suas línguas o evangelho segundo Mateus, vindo a morrer na Armênia. André chegou com o evangelho até a região da atual Rússia e pregou aos cítios, além de testemunhar aos etíopes. Mateus também evangelizou a Etiópia e o Egito vindo a ser morto por Hircano. Felipe padeceu pregando o evangelho em Hierápolis, na Frígia. Através dos cristãos anônimos, o evangelho chegou também até a Acaia, toda a Ásia, entrou nos mais distantes redutos bárbaros, impactou a Macedônia e as remotas regiões da África central.

Segundo a ONU, dominicalmente, mais de 1 bilhão de pessoas, reúne-se em templos, casas e escolas, cultuando a Jesus. Isto jamais seria possível sem o derramar do Espírito encharcando a Igreja de Cristo com o poder do Alto para a pregação a qual, em diversas ocasiões, implicaria em perseguição, renúncia e por vezes martírio.

Podemos observar, portanto, o Pentecoste do ponto de vista: 

  • Da própria Igreja, agora, revestida de poder, preparada para a batalha, com profundo espírito de adoração e louvor;

 

  • Da missão

 

Justamente nesta época, estavam reunidos em Jerusalém os chamados Judeus da dispersão (2:5), os quais habitavam mais de 14 diferentes regiões e, certamente, conheciam e usavam diversas línguas gentílicas. O Espírito dá-se ao trabalho de inspirar Lucas para registrar que estes eram… (v 9-11).

 

Em um espetáculo de comunicação transcultural, o Espírito fez com que cada um ouvisse “as grandezas de Deus”  em sua própria língua materna (v 8). Certamente, Deus havia preparado as circunstâncias para o primeiro testemunho transcultural da Igreja revestida e penso que o Senhor queria enfatizar que:

 

  1. A descida do Espírito Santo não aconteceu apenas como uma experiência para a edificação do seu povo – A Igreja não foi chamada apenas à adoração;
  2. A primeira ação do Espírito Santo na Igreja ainda durante o Pentecoste foi lhes impelir ao testemunho falando das grandezas de Deus – Missão é resultado da ação do Espírito;
  3. Este primeiro testemunho da Igreja revestida foi ao mesmo tempo local e transcultural; feito em línguas gentílicas para homens e mulheres de perto e também para aqueles dispersos em países remotos entre povos não alcançados – Igreja é uma comunidade sem fronteiras;
  4. O “até aos confins da terra” era o alvo de Deus para Sua Igreja após o “recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo” – Deus preparava uma Igreja missionária.

 

Ao olharmos para uma igreja local ou movimento missionário, hoje, não devemos nos impressionar com seus grandes congressos, renomados pregadores ou suntuosas construções. Estes são efeitos, às vezes, humanos. Devemos nos impressionar, sim, pela sua real experiência com Deus, perseverante caminhada na fé e desejo obstinado de falar de Jesus. Estes são os efeitos do Pentecoste.

I Segundo Clemente – Livro dos Mártires, John Foxe, pp17

II Relatório anual de disposição religiosa 2002

 

 

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Pr. Ronaldo Lidório é missionário e expositor bíblico. Casado com Rossana e pai de dois filhos. Atuou como missionário na África durante 10 anos entre as tribos Konkomba e Chakali. Atualmente, lidera uma equipe que trabalha para alcançar grupos indígenas na Amazônia Brasileira. É tradutor do Novo Testamento para a língua Limonkpeln, de Gana e consultor cultural para projetos pioneiros entre povos animistas em diversos campos. Doutor em Antropologia Cultural escreveu diversos livros, dentre eles, “Missões, o desafio continua” e “Konkombas”. É ligado à Agência Presbiteriana de Missões Transculturais (APMT) e à Missão AMEM.

3 Comments

  1. Marcus Aurelio Lopes da silva

    Muito seus comentários, desejo receber mais obrigado.

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