É constante ouvir:  “Não devemos enviar missionários para a Europa! ” Os argumentos para tal negativa são às vezes dos mais simplórios. A começar por aqueles que esfriam qualquer iniciativa missionária alegando terem prioridades como a realidade que lhes cerca e a implicação nas tarefas de seu ministério local em detrimento da missão transcultural e além-fronteiras, às vezes distintas entre si.

Outro pragmático desacordo com missão pró-europeu está ligado ao pressuposto de que todo candidato tem sua motivação numa busca por melhores condições de vida num país de primeiro mundo. Embora isso ocorra em muitos casos, não podemos generalizar.

Há os que se baseiam no fato da Europa já ter desperdiçado várias oportunidades em diversos momentos de sua história. Isso não traz fundamentação já que cada geração deve se mover para ganha sua própria geração e fomentar potencializações e sementes para as futuras.

Outros apontam para a tarefa missionária bitolando-a apenas a uma escala descendente cuja missão sempre significa deixar o melhor para o pior, o lugar mais favorecido e abastado para o mais proletariado e em estado de miserável pobreza. Para estes, missões é apenas sair de grandes cidades para o sertão nordestino, do litoral para a selva, do Brasil em desenvolvimento (BRIC), indo para os estados africanos que configuram na calda da lista enumerativa dos países em seu índice de desenvolvimento humano (IDH).

Embora algumas dessas motivações sejam unilateralmente aceitáveis, não deixemos de olhar para a outra polaridade. São países com boa qualidade de vida, porém sem peso de eternidade.

Semelhantes à cidade Frígia de Laodiceia que, embora estrutural e economicamente em ótimas condições a ponto de se considerar não precisar de Deus e de nada, eram miseráveis, cegos e nus numa perspectiva espiritual e moral, entre outras.

Apesar de tudo, no final da correção direcionada a tal comunidade na Ásia Menor, o Senhor Jesus relembra-lhes: “eu vos amo, por isso é que corrijo e disciplino vocês´´ Apocalipse 3.14-22

Deus ama ao mundo e ama as pessoas da Europa porque têm almas miseráveis, espíritos cegos e corpos nus que precisam ser resgatados pelo precioso sangue de Cristo já que o Evangelho todo, deve ser oferecido ao homem todo (todos os homens) em todos os lugares, como nos aponta a definição do pacto de Lausanne ¹

A Europa teve suas oportunidades? Sim! Teve a reforma? Sim! Foi instrumento na retomada das missões modernas notavelmente com Morávios e Wiliam Carey? Sim!

A obscuridade de hoje muito difere da glória do passado. Logo, cremos que a igreja sul-americana, e outras mais, podem lhes fazer experimentar um apreciável sabor, baseado em suas experiências peculiares com o Senhor que nos diz:
Esteja atento! Fortaleça o que resta e que estava para morrer, pois não achei suas obras perfeitas aos olhos do meu Deus. Apocalipse 3.2

A Revista Ultimato Edição n° 337 de julho/agosto de 2012, dedica majoritariamente seu espaço ao tema Europa. O artigo da capa “A Europa precisa de Jesus agora” nos firma colocações esclarecedoras! Segue um pequeno extrato:

“Não é uma tarefa fácil, como explicou o pastor luterano finlandês Kalevi Lehtinen em uma reunião realizada na Europa no início de 1988. Ele afirmou que para muitos europeus o evangelho não é nem bom nem novo. Não é novo porque o cristianismo já foi experimentado. Não é bom porque o cristianismo é desnecessário. Há muita diferença entre um campo missionário pré-cristão e outro pós-cristão, embora ambos necessitem do evangelho. A diferença, explica o diretor da Cruzada Estudantil e Profissional para Cristo na Europa, é a mesma existente entre a mulher solteira e a divorciada. Apesar de ambas estarem solteiras, a primeira tem ideais, esperanças, sonhos e aspirações; a segunda tem frustrações, lembranças amargas, experiências desagradáveis e apatia. A Europa pós-cristã é como a mulher divorciada — divorciada de Jesus, conclui Lehtinen.

Naturalmente, a mulher solteira aspira ao casamento muito mais do que a mulher divorciada. Para o europeu, insiste o pastor, “o cristianismo não é uma nova oportunidade jamais tentada”. Antes, “o cristianismo não pertence ao amanhã, mas ao ontem. Ser cristão, para a maior parte dos europeus, significa retornar à Idade Média e dizer não à visão científica do mundo e às realidades do hoje”. Por isso, é preciso passar à Europa (Atos 16.9) outra vez e pregar o evangelho a essa mulher divorciada. Afinal, quantas vezes Israel se divorciou de Deus e se prostituiu? Quantas vezes Deus teve misericórdia dos filhos de Abraão e se dispôs a receber outra vez a antiga esposa (Os 3.1-5)?

 

¹ – Pacto de Lausana foi um grande congresso mundial de evangélicos que ocorreu em 1974 em Lausana, Suíça, onde foi criado um comitê mundial das igrejas evangélicas.

Vamos permear algumas eras da história europeia e sua relação com o processo desenvolvedor na aceitação do evangelho…

  1. Primordial ou PRIMITIVA

Nesta sessão entenderemos como se deu a expansão do evangelho através de iniciativas esporádicas resultando no florescer de novas igrejas por meio de conversões iniciais em indivíduos chave sob influência de alguns fatores que a seguir destacamos:

  • FATOR CRISTO (Atos 1-2) – A expansão vislumbrada por Deus

Desde o início, o Senhor Jesus deixou bem claro que o impacto do Reino de Deus (1.6) não tinha limites (1.8)

Porém a igreja em Jerusalém demora tempo demais, o que não exprimisse um sentimento de urgência. Estima-se entre três e cinco anos o tempo decorrente desde a ordem de sair a partir de Jerusalém em Atos 1.8 e o momento em que realmente iniciou-se a diáspora (Atos 8.1; 11.19) decorrente da perseguição cujo estopim fora o martírio de Estevão (Atos 7).

Mesmo estando espalhado, não tiveram a postura de levar o Evangelho a outros povos que não eles próprios conforme relato de Atos 11.19

“E os que foram dispersos pela perseguição que sucedeu por causa de Estêvão caminharam até à Fenícia, Chipre e Antioquia, não anunciando a ninguém a palavra, senão somente aos judeus.

  • FATOR PEDRO (Atos 3-10) – Atuante em sua localidade, mas sem erguer um pouco mais os olhos (João 4.34)

É evidente em Pedro o xenofobismo que abafou um possível desejo de anunciar o evangelho além-fronteiras étnicas e geográficas. Além do mais lhe foram um agravante pressões externas advindas das tradições judaicas (Gálatas  2.11-14).

Pedro necessitou de uma intervenção puramente divina para abandonar o bloqueio que lhe impedia anunciar a Palavra de Deus aos desventurados indivíduos devido suas origens e enfim declarar: “Reconheço, por verdade, que Deus não faz acepção de pessoas” Atos 10.34

Só para constar, Cornélio era europeu e foi o primeiro gentil nomeado em atos a se converter à fé, chamada de seita por uns e de Caminho por outros. Atos 24.5,14

Na cidade de Cesareia morava um homem chamado Cornélio, centurião da coorte chamada Itálica. Era piedoso e, junto com todos os da sua família, pertencia ao grupo dos tementes a Deus; dava muitas esmolas ao povo e orava sempre a Deus. ” — Atos 10:1-2.

  • FATOR ANTIIOQUIA (Atos 11-13) – Uma Comunidade Missionária Com Alcance Étnico-Geográfico

Igreja que nasce num contexto multicultural herda uma visão missional aguçada, pois nesta cidade “havia entre eles alguns homens chíprios e cirenenses, os quais entrando em Antioquia falaram aos gregos, anunciando o Senhor Jesus.

O início da jornada em viagens missionárias de Paulo e Barnabé dá-se através daqueles que, em sintonia com a vontade do Senhor, puderam ouvi-lo e obedecer sua ordem:

“Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado.”  Atos 13.2

O texto bíblico fala por si, e fala muito!

  • FATOR PAULO (Atos 14-28) – Da visão “limitada” à visão celestial

Eu me identifico muito com Paulo nesta questão já que em 2013 meu foco ministerial, até então concentrado na África, foi redirecionado à Europa. Na cidade de Saint Louis – Senegal, numa visão reveladora o Senhor me apontou uma nova etapa em minha vida e ministério.

O fato de Paulo não ter sido desobediente à visão celestial gerou dividendos eternos produzindo salvação na vida de milhares de pessoas a começar por alguns indivíduos elencados em Atos dos Apóstolos:

INDIVÍDUOS ALCANÇADOS

  1. Lídia em Filipos – Atos 16.14
  2. Outro centurião e sua família também em Filipos – Atos 16.30-32
  3. Jasom? com, nobres homens, e mulheres nobres além de gregos religiosos em – Tessalônica  –  Atos 17.4
  4. Homens e mulheres nobres de Beréia – Atos 17.12
  5. Dionísio, Damaris e outros – em Atenas – Atos 17.34
  6. Priscila, Áquila, Crispo e sua família com e muitos em Corinto – Atos 18.8

 

 2.IDADE MODERNA

A pré-reforma, a reforma em si, a pós-reforma2 e a contrarreforma sacudiram a sociedade no início da idade moderna, o estado e as instituições religiosas.

Eis é um capítulo à parte do qual muitas lições podem ser extraídas! Não poderemos dedicar muito espaço para tal assunto, mas vale à pena ressaltar que o continente europeu foi tocado por esse movimento divisor de águas com sucesso em cerca de 50% do seu território.

Sob a égide da reforma e suas diversas facetas, seja Luterana, Calvinista, Anglicana, Puritana e outras; o movimento pôde resistir à predominância Católica e fincar raízes profundas que lançariam ramas a recobrirem, a partir da Europa, outros cantos da terra.

Se nesse período sombrio da história viu-se brilhar tão cintilante raio de luz, não preciso ser tão crédulo para dizer que Deus pode reconstruir algo parecido em nossos dias!

  1. DIAS ATUAIS, A EUROPA DE HOJE

Vencendo as barreiras dos que dizem: “não precisam”, “não querem” e “há outros” temos algumas razões para continuar dedicando esforços na evangelização da Europa.

  • Uma Igreja Moribunda

Muitos são os relatos de missionários que constatam em seus campos de atuação que a população evangélica ali vem diminuindo.  Segundo Tamara Sanches, missionária SEMAP em Portugal, a taxa decresceu nos últimos anos deixando às margens de 1%, afundando nos cerca de 0,5%.

Analisando dados do Gordon-Conwell Theological Seminary em Boston nos E.U.A fui surpreendido com informações que me levaram à seguinte conclusão: Em 1910, das 10 maiores nações evangélicas do mundo 7 eram europeias. Em 2015 apenas 2 estão na lista entre as 10 mais.

2 pós-reforma  –  Ideia própria (grifo meu) apontando para movimentos reformadores de outros países seguindo em termos de data os luteranos alemães. Suíços, Franceses, Escoceses entre outros produziram grupos protestantes distintos que podem ser considerados também como parte inerente da reforma em si, mas que nesse compêndio coloco com estes termos.

Ausência de Renovação Ministerial e Missionária

Isso tem influenciado diretamente na morte progressiva de movimentos missionários e igrejas locais. No ano 2000 a missão francesa “la porte ouverte” ainda oferecia uma formação teológica cuja maioria dos formandos exercia (e exerce até os dias de hoje) alguma sorte de ministério.

Infelizmente desde 2005 não há mais turmas criadas por essa instituição septuagenária. Não houve interesse porque falta membresia nas igrejas locais onde deveria existir motivação e mobilização para que se fornecesse novos alunos, tornando a igreja local o celeiro abastecedor das organizações para-eclesiásticas.

Nas décadas de 50 e 60 muitos missionários francófonos (franceses, suíços e belgas) eram enviados às 22 nações com mesma língua materna mundo à fora. Hoje é mui rara a presença destes entre a maioria americana, latina, asiática e brasileira que “recheia” campos com suas atuações missionárias.

Uma iniciativa tem surgido para ajudar a mudar essa situação especificamente na França. Ao catalogarem aproximadamente 200 frentes de trabalho que necessitam urgentemente de revitalização, o “Projet France-Brésil” visa enviar novos pastores e obreiros em parcerias formadas entre igrejas de ambos os países. Alguns desses trabalhos assemelham-se a recém-nascidos enquanto que outros a doentes em estado terminal.

  • Liberdade para se pregar a imigrantes e refugiados sendo muitos destes oriundos de nações fechadas

Nunca tivemos tanta oportunidade de alcançar nações fechadas quanto à pregação do evangelho que neste tempo através de seus indivíduos refugiados em toda Europa.

Aqui também tem pano para a manga! Muito assunto a ser abordado, o que exige maior espaço. Mas não podemos deixar de atentar para essa situação de extrema delicadeza para os países albergadores que, no entanto, pode ser aproveitada pela igreja mundial como o bom momento de erguer os olhos para campos de uma seara que já branqueja para a ceifa. Joao 4.35

Essa é uma grande oportunidade a ser priorizada para que em décadas não venhamos lidar com o sabor amargo de um ensejo mal aproveitado. Disso falaremos a seguir…

 

  • Ela constitui-se num escudo protetivo face ao avanço de outros blocos religiosos

Em 1960 o General francês Charles de Gaule promulgou a independência de vários estados do norte e oeste africanos. Este evento resultou numa onda migratória de lugares como Tunísia, Marrocos (1956), Senegal (1960) e Argélia (1962) para a França. Assim fez-se tratado pós colonização que incluía o fornecimento de equipamentos, recursos e treinamento de pessoal para se reerguer as recém liberadas nações.

Se a igreja daquela época tivesse se aplicado na evangelização dessas comunidades e não deixado que “levassem a vida normalmente” nos guetos de grandes cidades, quem sabe hoje teríamos menos radicalismo religioso e mais paixão fervorosa por Jesus!

Em suma, se 60 anos atrás a semente do evangelho tivesse sido lançada e germinado nessas nações, estariam funcionando como uma espécie de escudo contra o avanço das iniciativas de expansão religiosas para o alcance dos países americanos e não como foco produtor de indivíduos radicalizados.

CONCLUSÃO

Espero que este conteúdo posso ter apetitado seu desejo de alimentar-se um pouco mais da matéria além dessa singela degustação.

Que o desejo de ganhar almas em obediência ao Senhor que nos chamou para uma conduta propagadora de sua Palavra sem restrições e nem acepções, esteja ardendo fortemente em sua alma de servo.

 

Texto de : Eduardo Fernandes é casado com Valdirene Inácio, pai de Déborah Kézye e Amanda. É pastor da Assembleia de Deus Missão aos Povos de Uberlândia – MG. Bacharel em teologia com especialização em missiologia pela Horizontes Latino América. Atuou como missionário por muitos anos no continente africano e europeu em países como Níger, Senegal e Alemanha.

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