O Barco Hospital é um ministério da Igreja Metodista na Região Missionária do Amazonas. Centenas de ribeirinhos e indígenas já foram atendidos pelo projeto. Desde 2010, quem organiza as viagens é o pastor Luis Augusto Cardias. Todos os anos ele recebe voluntários (as) de várias partes do Brasil e do mundo para levar saúde, educação e desenvolvimento comunitário a quem tem pouco ou nenhum acesso.

Nesta entrevista ao jornal metodista “Expositor Cristão” , o pastor Luis Augusto conta algumas experiências marcantes e faz um apelo aos metodistas brasileiros. Leia e reflita!

 

Como começou seu ministério com os ribeirinhos e indígenas da Amazônia?

Pr. Augusto Cardias: Tenho 19 anos de trabalho com esses povos. Antes de passar pela faculdade de teologia em Porto Velho/RO, eu era membro de uma missão americana chamada Teen Missions. Após cinco anos nessa missão, meu desejo de pregar o evangelho aumentou e, ao mesmo tempo, sentia uma necessidade maior de me preparar. Foi quando comecei a cursar teologia. Depois assumi o pastorado na Igreja Metodista em Rondônia. Minha primeira igreja foi uma congregação metodista em uma área de invasão de terra chamada Jardim das Mangueiras. Começamos o trabalho com dois adultos e 15 crianças. Hoje, nesse local, há uma igreja consolidada e bem dinâmica para a glória do nosso Deus.

P10_23_06_14_Luis_Algusto_CardiasPastor Luis Augusto Cardias

 

Como começou o trabalho com o Barco Hospital Missionário?

O trabalho começou com um sonho do bispo Adolfo, que sempre desejou alcançar os ribeirinhos e ajudar este povo. Deus ouviu a oração do bispo e tocou no coração de um empresário que construiu o barco e deixou sob a responsabilidade da organização Visão Mundial no ano de 2002. Em seguida uma parceria foi firmada com a Igreja Metodista. Este ano o Barco Hospital completa 14 anos.

 

Quais são as maiores dificuldades do povo visitado pelo Barco Hospital?

Nos locais que temos atendido, há muitas crianças e adolescentes sem perspectiva. A grande maioria se casa aos 13 anos de idade e logo tem filhos. Vivem com muita dificuldade. Dependem da caça ou pesca e sofrem coma cheia ou coma seca. Algumas comunidades até contam com enfermeiros ou médicos, mas não têm medicamentos. Há escolas, mas não investimentos. São muitos casos de doenças sexualmente transmissíveis entre os jovens. Em algumas comunidades, o índice de HIV começa a crescer assustadoramente. Isso tudo sem falar no turismo sexual, pedofilia e as drogas que estão invadindo as comunidades. Todas essas mazelas chegam por meio das embarcações que fazem o transporte de turistas e moradores.

 

Certamente o senhor já viveu muitas experiências marcantes. Poderia contar uma delas?

Sim. Em 2012, fomos procurados pelos índios da tribo Mura na região do rio Altazes, distante 20 horas de Manaus. Eles fizeram um pedido, pois estavam abandonados, não tinham igreja, recursos ou ajuda. Eles queriam saber com quem precisavam falar para que o Barco da Igreja Metodista os visitasse. Fizemos um apelo em várias igrejas e apenas uma atendeu nosso chamado. Os custos da viagem passavam de 22 mil reais. Ao chegarmos lá, fizemos um trabalho maravilhoso de atendimento médico e evangelístico. Ao todo, 67 indígenas aceitaram a Jesus. Mas, a experiência mais marcante aconteceu quando estávamos em um momento de lazer. Uma das integrantes da equipe saiu para ir ao barco, quando viu uma jovem indígena entrando no mato chorando. Incomodada com aquela cena, resolveu seguir a jovem. Ao chegar perto, disse que se precisasse de ajuda ela estava ali para ajudar. Foi então que a jovem desabafou que estava muito triste e que entrou ali para se matar. Disse também que só não se mataria se Deus falasse com ela naquele momento. E Deus falou. Aquela não se suicidou porque naquele momento havia uma pessoa que veio de muito longe no barco da Igreja Metodista para se encontrar com aquela jovem. Em janeiro desse ano, eu estive na tribo dos indos Muras e aquela jovem estava lá, feliz, casada, com um filho lindo e vivendo em paz. Ela disse: “ainda bem que existe esta igreja e este barco porque vocês são os únicos que se importam com a gente e não nos abandonam”.

 

Como o senhor se sente trabalhando e abençoando esses povos?

Às vezes me sinto impotente, pois nas últimas estatísticas levantadas sobre povos os povos ribeirinhos e indígenas, descobrimos que há 121 etnias indígenas onde o evangelho ou igrejas. Deus tem nos cobrado para avançar e fazer mais. Este ano estamos buscando parcerias para irmos a algumas localidades aonde o Evangelho ainda não chegou.

 

Lembra de alguma experiência frustrante no campo?

Com certeza. São várias. Uma vez na Vila do Pesqueiro, no Lago do Janauaca, região do rio Manaquiri, havia muita gente para ser atendida. Estávamos muito motivados. No período da manhã foi tudo muito tranquilo, entretanto, à tare, passamos por uma situação muito triste. Uma jovem de 26 anos, grávida de nove meses, chegou muito feliz, pois, aguardava a chegada do primeiro filho. Fizemos a ficha de atendimento e a colocamos na lista de prioridade para a ginecologista. Cinco minutos depois que ela entrou na sala de atendimento, fui chamado. A ginecologista me contou que a criança estava morta, dentro da barriga da mãe. O tempo de nascimento havia passado. Eu tive de dar a notícia para aquela jovem. O bebê morreu porque naquela região não há médicos. Isso mexeu muito conosco, pois se tivéssemos chegado dois dias antes, poderíamos ter salvado aquela criança.

Outra situação aconteceu no Lago Grande na região da Vila do Limão, distante 16 horas de Manaus. Estávamos atendendo em casas flutuantes. A cheia era muito grande na época. Depois de atendermos o dia todo, uma família nos procurou para falar sobre um problema do local. Um senhor aposentado estava aliciando crianças da vila. Ele dava presentes às crianças e também aos seus pais em troca do silêncio. Aquela família perguntou o que a igreja poderia fazer para ajudar a mudar essa situação. A equipe que estava comigo ficou muito indignada, mas não houve outra reação a não ser esta. Hoje temos um ponto de pregação perto desse local, mas ainda não conseguimos ser eficientes para resolver o problema.

 

Como o senhor avalia o envolvimento dos metodistas brasileiros em ações missionárias na Amazônia?

Acredito que a nossa igreja brasileira está olhando com mais carinho e intensidade para a região da Amazônia. Grande parte das equipes de voluntários é de brasileiros. Até 2010, tínhamos 10 viagens com estrangeiros e 2 com brasileiros por ano. Atualmente, temos 12 com brasileiros e 4 com estrangeiros. Mesmo assim, faço um clamor para todos os membros das nossas igrejas. Venham ter uma experiência missionária nas regiões ribeirinhas e em Manaus! Todas as pessoas são bem–vindas: adolescentes, jovens, adultos, estudantes, médicos/as, dentistas, manicures, cabeleireiros/as, professores/as de Escola Dominical, repórteres, fotógrafos/as, líderes de células, pastores/ as, seminaristas, artesãos/ãs, aposentados/as, bispos, intercessores/as, tesoureiros/as, todos! Há sempre algo que você poderá fazer aqui no meio do nosso povo!

Fonte: Ultimato  – conheça mais Clique Aqui

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