Analzira Nascimento é autora de Evangelização ou Colonização?, é missionária da Junta de Missões Mundiais e serviu em Angola por 17 anos durante a guerra civil naquele país. Doutora em ciências da religião pela Universidade Metodista de São Paulo, coordena o ministério Com Vocação, da JMM, e trabalha com a Associação de Missões Transculturais Brasileiras e a Associação de Professores de Missões do Brasil. É responsável pelos projetos missionários da Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo. Entrevistamos ela para saber um pouco mais sobre sua visão de evangelização, missões e as questões coloniais intrínsecas à elas.

1. O seu livro faz uma análise crítica da nossa prática missionária. Por que você resolveu escrever sobre este assunto?

– Eu tinha duas possibilidades de pesquisa: sistematizar minha experiência de ser missionária na guerra de Angola por 17 anos ou problematizar dentro do tema escolhido – algo que sempre me incomodou, pois eu também cai nesta armadilha.

2. Prática missionária e prática evangelística são a mesma coisa?

– Há uma tendência reducionista de colocar evangelismo e missão como sinônimos. David Bosch, missiólogo sul africano, traz uma contribuição interessante afirmando que o evangelismo é parte integrante da missão. Ele está inserido na missão global da igreja.

3. Como é possível falhar em se preocupar com o “outro” na prática do evangelismo, se evangelismo é exatamente relacionar-se com o outro? Não parece algo estranho?

– Tentei mostrar na minha pesquisa como podemos falhar na nossa abordagem evangelística ao compartilhar a nossa fé. A nossa obsessão por cumprir metas e implantar programas pode “invisibilizar” o outro. Há um perigo de fazermos o trabalho de Deus com motivações erradas.

4. Para falar sobre o problema, você usa expressões como “imperialismo” e “colonialismo”. Estas expressões nos fazem lembrar questões de ordem política. É isso mesmo? O problema da evangelização também é político?

– Eu me refiro ao cuidado que devemos ter nas relações com o ‘outro’. O Iluminismo deixou marcas no paradigma missionário e muitas vezes nos sentimos ‘os superiores’ que sabem e podem resolver os problemas do outro. Queremos ajudar os pobres, fazer coisas bacanas para eles, mas não com eles. O modelo de pratica missionária que predomina continua reproduzindo a mesma lógica colonialista de dominação que reforça a negação da identidade do outro e o reduz a objeto.

5. Você é uma missionária experiente. Trabalhou em plena guerra na Angola. Viu a maldade humana, mas também a solidariedade. Diante destes paradoxos do “outro”, como deveria ser uma evangelização ideal?

– Em situações de crise – como no conflito armado em que eu vivi – a convivência e a amizade criavam vínculos de afeto. A luta pela vida gerou uma cultura de interdependência entre nós. A minha decisão de ficar com eles nos combates selou uma confiança e conquistei o direito de ser ouvida. Levei muitas pessoas a Cristo como consequência da amizade e amor demonstrado. O nosso foco não deve estar no alcance de metas e estatísticas, vendo o outro só como um depositário dos nossos conteúdos. A nossa motivação tem que ser a glória de Deus.

6. No primeiro capítulo do seu livro, você fala sobre uma “crise paradigmática”. Que crise é essa?

– Vivemos tempos de esgotamento de paradigmas. Um desmoronamento das ideologias, que Michel de Certeau descreve como “erosão nas instituições”. Os modelos vigentes não conseguem mais responder aos novos problemas que despontam, mas o medo das mudanças pode nos levar a estagnação e a decisão de continuidade só para preservar posições.

7. A história mostra que alguns países colonialistas como Inglaterra e EUA cometeram muitos erros quando confundiram interesses do Estado com Cristianismo. Países mais pobres, como o Brasil, correm o risco de cometer erros parecidos?

– Com certeza o Brasil corre grande perigo. No meio missiológico fala-se muito em um papel de liderança do Brasil, mas ele como país colonizado que foi, deve aprender as lições com a história. Temos gratidão por todo trabalho feito por irmãos do Norte, pois estes contatos favoreceram também uma globalização que nem sempre foi hegemônica. A grande lição que tiramos é que nossos contatos não sejam mais silenciadores, verticalistas ou imperialistas, mas haja uma relação dialógica onde o outro lado também tenha a chance de sentar-se a mesa com a gente.

 

Fonte : Revista Utimato

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