Em entrevista ao Radar Missionário Sérgio Sakata, coordenador do departamento de Profissionais e Empresários em Missão (PEM) e da Associação de Missões Transculturais Brasileiras (AMTB), compartilhou suas experiências missionárias e esclareceu algumas dúvidas sobre o assunto.

Primeiramente gostaria de dizer que é um privilégio compartilhar sobre Business as Missions (BAM) no Radar Missionário. O intuito do PEM/AMTB é o de se tornar a referência do movimento de BAM e Fazedores de Tendas no Brasil (profissionais em missão), além de suportar com ações práticas, missionários e candidatos a missionários a aplicar essas visões em seus projetos para o avanço do Reino de Deus entre as nações.

Poderia compartilhar um pouco a respeito da AMTB e do PEM?

A AMTB é uma associação formada hoje por 51 agências missionárias transculturais brasileiras que tem como propósito de uni-las em torno de estratégias para mobilização da igreja brasileira (www.amtb.org.br). E o PEM é um departamento da AMTB focado em duas estratégias missionárias: BAM e Fazedor de Tendas, que tem como intuito de ser a referência brasileira sobre estes temas, além de suportar de maneira prática candidatos e praticantes de tais estratégias, prioritariamente, em contextos transculturais.

Na sua opinião o que é BAM (Business as Mission)?

Segundo o encontro de Lausanne para evangelização mundial de 2004, BAM é a estratégia de se gerir empresas reais e economicamente sustentáveis com o propósito de transformar pessoas e comunidades espiritual, econômica e socialmente para a Glória de Deus.

A chave nessa estratégia é a intencionalidade de se relacionar com as pessoas que ainda não conhecem a Cristo, para que elas enxerguem o quanto Cristo é relevante na vida do empresário BAM. É dar a oportunidade para os que ainda não conhecem a Deus, de se andar diariamente com quem ama e teme a Deus, e de mostrar o quanto Deus é importante e real. Numa exposição de vida e testemunho de no mínimo 40 horas por semana, mostrando como um bom cristão toma decisões, lida com desafios do dia a dia, com conflitos na empresa, com a qualidade da entrega dos produtos, com aforma como se relaciona com o Governo no pagamento de impostos, contratação de funcionários, etc. Enfim, todas as esferas de sua vida diária devem apontar para o nosso Deus Criador, Salvador e Santificador.

Ser BAM nos desafia a sermos cristãos não somente no fim de semana, ou nos encontros após o expediente.  Pois é fácil ser cristão no meio de outros cristãos, quando louvamos a Deus juntos, nos alimentamos da palavra de Deus  e celebramos a união do corpo de Cristo. Difícil é ser cristão quando os desafios aparecerem. E normalmente eles aparecem no trabalho. E é nesse momento que sua fé é provada. Por outro lado, é exatamente nesse contexto, na forma como se lida com as provações, que existe maior oportunidade de mostrar o quanto Cristo é relevante na sua vida, para quem ainda não o conhece. Por isso que o BAM acredita que o ambiente de trabalho é um local propício para fazermos diferença na vida de muitas pessoas. Pois, Cristo não nos chama a sermos luz no meio da luz, mas no meio das trevas. Somos chamados para o mundo, para sermos reflexo do seu amor, através de nossas vidas. Esse é o convite da estratégia de BAM. De sermos testemunhas de Cristo não somente na igreja, mas principalmente fora dela, a partir do contexto de seu próprio trabalho, glorificando a Ele em cada aspecto de seu negócio.

E essa estratégia pode ser aplicada tanto em contexto de empresas no Brasil quanto em contexto de missão transcultural.

 Qual é a diferença entre BAM (Negócios como missões) e BFM (Negócios para missões)?

O BMF trata uma estratégia de se gerir empresas com o propósito de usar parte do resultado financeiro para a obra missionária, ou seja, a empresa é geradora de recursos para sustentar um projeto missionário. É uma estratégia muito importante para o avanço do Reino, visto que existem muitos projetos dependem de outras fontes para seu sustento para desenvolver seus trabalhos.

Enquanto na estratégia de BAM, o negócio é a própria missão. O meu negócio é a minha missão, ou seja, são elementos totalmente intrínsecos. O negócio é criado e gerido com a intencionalidade de usá-lo como instrumento para a obra missionária, através da geração de empregos, dos relacionamentos criados, da oportunidade de ser referencia do quanto Cristo faz diferença na vida de quem crê nEle.

São diferentes, mas não excludentes. Você pode adotar uma estratégia BAM sendo luz no meio daqueles que não conhecem a Cristo através dos relacionamentos que faz na sua empresa, e, ao mesmo tempo, ser um praticante de BFM, doando parte de seus lucros para outros projetos missionários fora dela.

Como analisa a importância do BAM para missões mundiais?

Existem muitas vantagens no uso do BAM como estratégia de missões em um contexto transcultural. A primeira delas é a justificação da sua intenção de permanência no país por um longo período perante o Governo. Muitos países nos dias de hoje não concedem vistos de pastor ou missionário. Só são aceitos vistos de turismo (curtíssimo prazo), de estudante (curto e médio prazo) ou de trabalho (longo prazo). Muitas vezes, nem mesmo trabalhos assistencialistas ou humanitários em ONGs têm sido aceitos, porque muitos Governos sabem da existência de projetos missionários que se utilizam dessa estratégia para permanecer. Mas, dificilmente um país negará um visto para alguém que deseja trazer investimentos estrangeiros e novos empregos locais.

A estratégia de BAM também é vista como uma maneira mais natural de se relacionar com as pessoas locais e pode dar mais crédito para sua pessoa e, consequentemente, para seu testemunho. Pois, o trabalho auxilia a se identificar com as outras pessoas, o sustento vem do seu trabalho visível (você é como eles), por isso é uma forma de se contextualizar para se utilizar desse contexto para compartilhar da fé de maneira mais evidente. Porque em muitos casos é preciso demonstrar o que é ser cristão para depois ter a oportunidade de se apresentar o Cristo. Eles precisam de uma referência de alguém contextualizado no dia a dia para que possam balizar a razão da relevância da decisão de se andar com Deus diariamente.

Além disso, a estratégia de BAM é focada na transformação de vida holística das pessoas que ainda não conhecem a Deus. É o derramar da graça de Deus na vida de muitos, concedendo a eles nova oportunidade de vida, dando-lhes dignidade, dando-lhes esperança, trazendo muitas vezes um novo recomeço através da geração de novos empregos. Muitos BAMs dão oportunidade para quem normalmente não teria oportunidade. Preocupam-se em demonstrar a vinda do Reino de Deus hoje na vida das pessoas nas quais eles empregam.

A questão não é somente uma preocupação da transformação espiritual, mas existe uma preocupação da transformação econômico-social daquelas pessoas e da sociedade. Por essas razões é cada vez mais frequente a adoção da estratégia de BAM em projetos transculturais.

Qual é a realidade do movimento BAM no Brasil?

Por muitos anos, os cristãos brasileiros, de maneira geral, tinham o pensamento de que servir a Deus é servir na igreja e para a igreja. Eu mesmo pensava assim até então. Eu entendia que trabalhar era apenas uma forma de me sustentar, por isso me esforçava o mínimo possível, para guardar minhas energias para servir a Deus depois o trabalho, na organização de uma mensagem, na participação de uma célula, ou ainda nos fins de semana nas atividades da igreja. Enfim, enxergava dois mundos distintos: vida secular e vida com Deus. E imagino que muitos ainda pensam como eu pensava.

Por outro lado, imagino que muitos fizeram ou fazem BAM no Brasil ou fora dele, de maneira intencional, mas ainda desconhecem a estratégia de BAM de uma maneira clara e estruturada.

Apesar desta estratégia não ser de hoje (o apóstolo Paulo, por exemplo, já fazia), este conceito foi desenvolvido há pouco tempo, tendo sido referendado apenas em 2004 no documento de Lausanne, produzido no Fórum de Evangelização Mundial de 2004, na Tailândia, composto por 1.530 participantes representando 130 países.

Por isso, as iniciativas brasileiras, feitas no Brasil ou fora dele, ainda são muito incipientes e não coordenadas. Existem empresários BAM no Brasil, assim como missionários transculturais que têm aberto empresas com essa estratégia.

O propósito da AMTB é justamente o de ser a referência de BAM e Fazedores de Tendas no Brasil de maneira a reunir praticantes e candidatos a BAM e Fazedores de Tendas e de capacitá-los, potencializando seus projetos, principalmente, em contextos transculturais onde o evangelho ainda não é conhecido.

Qual sua analise desse tipo de missões não ser forte no Brasil? Como vê o Brasil em relação aos outros países?

De maneira mais ampla, acredito que entendimento global comum do conceito de BAM, assim como as ações coordenadas pelas organizações focadas no tema ainda é muito recente. Olhando para o Brasil, vejo que a limitação mais forte é a miopia da igreja brasileira de enxergar a vida de maneira dicotômica, separando o secular do sagrado. Normalmente somos estimulados apenas a servir a Deus dentro dos muros da igreja. Se servimos na igreja então estamos bem espiritualmente. Quando na verdade, Deus nos chama por inteiro. Ele nos convida a dedicarmos integralmente nossa vida a Ele. O problema desta miopia é que temos dificuldade de entregar a totalidade de nossas vidas a Deus, por isso que nos conformamos em viver uma vida dicotômica, onde muitas vezes não honramos a Cristo fora dos muros da igreja, que é exatamente onde deveríamos fazer mais diferença na vida dos que não tiveram a oportunidade de conhecê-Lo.

Além disso, existe um pré-conceito de não misturarmos assuntos de igreja com negócios. O entendimento de BFM é amplamente difundido. Até porque os assuntos dentro da igreja se resumem a iniciativas às áreas de crescimento espiritual ou de projetos de assistência médica, social e até ambiental. Menosprezamos o potencial dos empresários, que se resumem a contribuição financeira. Por outro lado, projetos missionários normalmente tendem a ser vistos necessariamente como franciscanos, com voto de pobreza, tendo a ênfase somente na justiça social, sendo totalmente avesso ao lucro. O problema é que isso acaba inibindo a discussão a respeito de projetos BAM, que necessariamente devem visar a sustentabilidade, crescimento e o equilíbrio financeiro.

Tudo isso torna a discussão e a difusão do movimento BAM no Brasil um verdadeiro desafio.

Em um comparativo a respeito do Brasil e outros países, vejo que estamos atrás, principalmente, de países que já possuem organizações estruturadas no tema como EUA e Coreia do Sul, mas enxergo o desenvolvimento dessa estratégia com muito otimismo em um futuro próximo.

Se antigamente o Brasil era apenas um país a ser alcançado, hoje o movimento se inverteu e o Brasil é um país que envia missionários no mundo. E olhando para essa nova geração, fruto do suor das gerações anteriores, nunca houve tanta liberdade de escolha nas mãos e tão bem equipada em termos acadêmicos, domínio de línguas e que estivesse tão conectada ao mundo do que o que temos hoje. Além disso, os jovens possuem um ímpeto e uma energia de mudar o mundo e fazer diferença, sendo capazes de lutar para que velhos paradigmas sejam quebrados e que a igreja brasileira comece a olhar para os negócios como estratégias ímpares para o avanço do Reino.

Logo, acredito que o Brasil tem um potencial enorme para daqui alguns anos ser um centro de praticantes de BAM com muitos casos de sucesso.

Como os empresários brasileiros podem se envolver com o movimento de BAM no Brasil e no mundo?

Primeiramente é preciso desmistificar que o servir a Deus por parte dos empresários se reduz ao apoio financeiro aos projetos de outros. Eles podem ser instrumentos relevantes no Reino de Deus com o que sabem fazer de melhor: liderando empresas.

Empresários são referências naturais e fontes de influência na vida de muitas pessoas. Ouvi em uma pregação que empresários podem alcançar muito mais pessoas do que pastores. Tendo a concordar, pois estão muito mais perto dos que não conhecem a Cristo. Por isso, empresários brasileiros precisam assumir um protagonismo para o avanço do Reino, aplicando a estratégia de BAM em suas próprias empresas, honrando a Deus em todas as esferas de seu negócio com o intuito de ser referência e modelo do que é ser cristão.

Em segundo lugar, empresários cristãos maduros podem ser mentores de empresários BAMs mais jovens. Líderes são pessoas normalmente solitárias, pois estão na posição mais alta da hierarquia, mas precisam tomar decisões muito importantes a todo instante. Por isso, líderes mais jovens precisam de conselhos dos mais experientes para minimizar as chances de insucesso. Conselhos repletos de sabedoria podem ser muito preciosos na jornada de um mais novo na caminhada. Além disso, podem contribuir ampliando a rede de contatos que o jovem possui. Uma simples indicação de alguém mais conhecido no mercado pode abrir muitas portas para alguém que está começando e isso pode ser decisivo para conquistar o espaço necessário no mercado.

Por fim, empresários brasileiros podem formar uma rede de potenciais investidores pré-dispostos a ouvir os projetos BAMs de outros. Assim como todo projeto, para a viabilização de uma iniciativa BAM é preciso de investimento para iniciá-lo ou expandi-lo.

A AMTB através do PEM está elaborando uma rede pessoas dispostas a se envolver com o movimento BAM, com ênfase na missão transcultural. Não deixe de nos contactar caso queira se envolver como um praticante de BAM, mentor de negócios ou potencial investidor.

O PEM/AMTB tem eventos marcados sobre esse assunto?

Entre os dias 30/10 a 02/11 teremos pela primeira vez no Brasil o curso “Vá preparado” que será ministrado em Brasília, em parceria com a agência americana Global Opportunities.

Será uma excelente oportunidade de participar de um curso prático para quem tem um chamado transcultural como Fazedor de Tendas ou BAM.

Mais informações estarão disponíveis no site http://fazendotendas.org

Contato para mais informações sobre o PEM/AMTB. pem@amtb.org.br

3 Comments

  1. ivone vismara

    gostaria de receber informações sobre este assunto.

  2. Pingback: Entrevista – Sérgio Sakata – Radar Missionário | Fazendo Tendas

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