Da boca dos pequeninos e crianças de peito tiraste perfeito louvor” (Mt  21:16b)

Nos primeiros seis meses, minha esposa e nossas filhas não puderam entrar na aldeia, porque nossa casa não havia ainda sido construída. Fiquei, então, morando na casa do Cacique. Minha rotina era ficar um mês na aldeia e 15 dias na cidade naquele período.

Nossa intenção era aprender a língua e a cultura e ajudá-los na escola indígena. Eu havia entrado como professor de português, pois, evidentemente, é uma região extremamente arredia ao Evangelho e à presença missionária. Dedicamo-nos, então, a não fechar aquelas portas que Deus abrira com tanto cuidado.

Dias índios 4

foto arquivo do autor

Na primeira vez que fui para a cidade, vários indígenas do nosso povo vieram nos visitar em casa. Minha esposa fez um delicioso almoço para recebermos um grupo de 14 indígenas. Um dos caciques veio com uma das suas esposas, vários filhos e seus netos. Foi uma tarde muito gostosa. Quando eles saíram, a filha do Cacique ainda ficou um pouco mais de tempo lá em casa.

Enquanto minha esposa não podia entrar comigo, ela vinha estudando a língua com essa jovem que era filha do Cacique, porque ela também morava na cidade. Ela era a única mulher da aldeia que entendia um pouquinho de português. Naquela tarde, contudo, quando todos saíram e aquela jovem continuou conosco, o inesperado aconteceu: Gisele, minha filha mais nova, olhou para nossa visitante indígena e disparou do nada: “Vou ler uma página da Bíblia para você”. Na época dessa história, minha filhinha tinha apenas três aninhos de idade e nem sabia ler! Ela correu às nossas coisas e trouxe nas suas mãozinhas uma Bíblia, abriu-a na frente da nossa visitante e, com os olhinhos fixos na folha, começou a “ler”, cantando: “Leia a Bíblia e faça oração, faça oração, faça oração, se você quiser crescer”. E repetiu esta canção umas quatro ou cinco vezes.

Ficamos estatelados! Tanto cuidado para não passar o carro na frente dos bois e agora nos encontrávamos ali emoldurados pelos nossos sorrisos amarelos e perplexidade. A minha filha mais velha (cinco aninhos) estava totalmente consciente de que algo “fora dos planos” estava acontecendo e ficou nos olhando com uma cara inenarrável, esperando a nossa reação. Mas qual reação eu poderia ter? Minha filhinha estava linda! Ela estava ali pregando pela primeira vez ao primeiro indígena do povo acerca do qual ela tanto nos ouvira falar. Fizemos, então, a única coisa possível naquela hora: descansamos na Soberania de Deus e ficamos toda a família rindo daquela maravilhosa e inesperada manifestação do Espírito Santo na vida de nossa inocente missionariazinha.

Nossa visitante? Bem, nossa visitante ouviu pela primeira vez na vida dela o que é um perfeito louvor. Glórias a Deus pela Sua maravilhosa Graça.

Texto de Fabio Ribas que é pastor da IPB e missionário da APMT entre povos indígenas do Brasil. Graduado em Letras e em Teologia e pós-graduado em Filosofia e Existência. Atua como professor em cursos de formação transcultural. Casado e pai de duas filhas.

Conheça mais sobre o autor: Clique Aqui

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado.